Irmão de Dilma diz que já esperava complicações

Embora o governo tenha tentado minimizar, a internação da ministra lembra a seriedade de seu problema de saúde. Igor Rousseff diz que esperava efeitos colaterais da químio: “Agora que deu isso, acho até que está normal”

Marcela Buscato e Ricardo Amaral com Matheus Leitão
Reprodução

OTIMISTA
A ministra Dilma Rousseff na saída do hospital, na semana passada. Ela diz que está usando “uma peruquinha básica”

Durante três semanas, desde que a ministra Dilma Rousseff confirmou que está fazendo tratamento médico para combater um linfoma, um tipo de câncer, o governo e a candidata do presidente Lula à sucessão se esforçaram para convencer o país de que a doença não afetaria o calendário político nem a rotina da chefe da Casa Civil. Na última segunda-feira, essa ilusão se desmanchou de forma dolorosa para a ministra e constrangedora para o governo. A família de Dilma, porém, tinha consciência dos possíveis efeitos colaterais da químio.

De Belo Horizonte, onde mora, o advogado Igor Rousseff, irmão da ministra, telefonou para a mãe, dona Dilma, que estava em Brasília. “Minha mãe disse que ela não tinha problema nenhum, não sentia nada. De repente, deu esse negócio”, disse Igor a ÉPOCA. Ele chegou a achar estranho que Dilma estivesse passando tão bem pelo tratamento. “Eu esperava outro tipo de coisa: enjoo, desmaio. Agora que deu isso, acho até que está normal.”

Na manhã de segunda-feira, Dilma dispensou a caminhada diária na região do Lago Sul e foi direto para seu gabinete, no Centro Cultural do Banco do Brasil, onde comandou uma longa reunião com gestores do PAC. Voltou para casa, onde almoçou com a mãe, que visita a filha por longas temporadas. À tarde, enquanto recebia o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, Dilma começou a sentir dores intensas nas panturrilhas, nas coxas e na região glútea. Ela suportou a audiência sem dar sinais do incômodo ao colega do BC.

Quando Meirelles se foi, Dilma tomou um analgésico, que não fez efeito. Telefonou ao cardiologista Roberto Kalil, que a encaminhou para o Hospital das Forças Armadas, onde funciona o Instituto do Coração de Brasília. Lá, uma assistente de Kalil receitou-lhe o anti-inflamatório dipirona e morfina, também sem resultado. Pouco antes da meia-noite, Dilma embarcou para São Paulo num avião-ambulância da empresa Amil, providenciado pelo cardiologista.

Na madrugada da terça-feira, enquanto Dilma voava em direção ao Hospital Sírio-Libanês, o mundo político mergulhava com força na incerteza. Do outro lado do mundo, em Pequim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dava os últimos retoques no discurso que faria minutos depois na sede do Congresso do Povo da China. Estava com os ministros Celso Amorim, das Relações Exteriores, e Franklin Martins, da Comunicação Social, quando o médico da Presidência, Cléber Ferreira, entrou na suíte para informar que Dilma estava a caminho de São Paulo, onde seria examinada. Lula ouviu com atenção, certificou-se de que Kalil, seu médico particular, estava no comando da situação e voltou ao discurso. Ele só conseguiria falar por telefone com Dilma no dia seguinte, depois de duas tentativas frustradas.

Foram 24 horas de dor – as piores que Dilma já sentiu na vida, como diria mais tarde –, até que os médicos diagnosticassem que ela sofria de miopatia. São dores musculares provocadas, no caso de Dilma, pela suspensão de um medicamento que ela vinha tomando depois da segunda sessão de quimioterapia, a cortisona. Dilma entrou no hospital às 2h30, pelo estacionamento do subsolo, onde era aguardada por uma equipe de especialistas, incluindo Kalil e o infectologista David Uip. Foram diretamente para a sala de ressonância magnética, onde Dilma ficou por 40 minutos, antes de subir para a suíte do 11º andar. O primeiro exame descartou a hipótese de uma infecção nos ossos. A segunda hipótese era que as dores fossem provocadas por uma inflamação dos nervos periféricos, uma neuropatia.

Dilma não conseguiu dormir direito. As dores eram mais intensas quando ela estava deitada ou sentada. Pela manhã, tomou uma dose de gabapentina, indicada para dores nos nervos. Por volta das 10 horas, ela recebeu o neurologista Milberto Scaff. Ele a encontrou sozinha, cochilando na poltrona do quarto. “A preocupação era sobre a origem da dor, se era de nervo, de músculo ou de osso, e ela entendeu perfeitamente, é uma pessoa de bom astral”, disse Scaff. Ele descartou a hipótese de neuropatia e suspendeu a gabapentina. “Vi que era uma dor de origem muscular mesmo, porque todo o exame neurológico dela era normal.”

Excluídas as hipóteses de neuropatia e inflamação nos ossos, acabou se confirmando a suspeita de que as dores foram provocadas pela suspensão da cortisona. O diagnóstico foi anunciado no começo da tarde da terça-feira. Ao receber alta, na quarta, na saída do hospital, Dilma anunciou que pretendia cancelar os compromissos daquele dia e do fim de semana.

A atitude traduziu a expectativa que todos, com exceção do governo, sustentam diante de alguém que se submete a um tratamento de quimioterapia – mesmo que seja, como dizem os médicos de Dilma, apenas para evitar a reincidência de um linfoma já extirpado.

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