Deputado faz campanha ameaçado por milícias

Depois de presidir CPI que resultou na acusação contra 1.113 pessoas, Marcelo Freixo teve de alterar sua rotina e passou a andar com seguranças

19 de setembro de 2010 | 0h 00
Alfredo Junqueira / RIO – O Estado de S.Paulo

No início da campanha eleitoral, enquanto candidatos marcavam presença nas ruas em busca de votos, o deputado estadual candidato à reeleição Marcelo Freixo (PSOL) encontrava tempo para atividades cotidianas, como ir ao cinema com a filha de 12 anos. Presidente da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), concluída em 2008, o parlamentar é obrigado a manter uma agenda clandestina por conta da quantidade de ameaças de morte que recebeu nos últimos anos.

Wilton Junior/AE

Wilton Junior/AE
Eleitorado. Freixo deve ter dificuldades para se reeleger; em caso de derrota, vai fugir do País

O problema é tão grave que afeta suas atividades cotidianas. A ida ao cinema foi monitorada por um grupo paramilitar com base na Região dos Lagos, que só desistiu de matar o deputado quando viu o número de seguranças que o acompanhava. Era a quarta tentativa identificada pela Secretaria de Segurança do Rio.

Freixo anda cercado por seguranças 24 horas por dia. Evita estabelecer rotinas e trajetos. Não pode ir a dezenas de bairros das zonas norte e oeste da capital nem a alguns municípios da região metropolitana. São áreas dominadas pelas milícias – grupos paramilitares formados por policiais, agentes penitenciários, bombeiros e civis que fazem fortuna vendendo segurança, gás, sinal clandestino de TV a cabo e controlando cooperativas de vans. Mesmo militantes do PSOL têm problemas para divulgá-lo nessas áreas. As ameaças são explícitas.

O trabalho que Freixo comandou na CPI resultou na identificação de 1.113 pessoas ligadas às milícias e no indiciamento de 225. Os paramilitares, que regem mais de 300 comunidades carentes no Estado, já elegeram vereadores e ao menos um deputado estadual. A maior parte deles perdeu o mandato após a conclusão da CPI. Alguns foram presos, outros não se reelegeram em 2008. As quadrilhas, porém, patrocinam pelo menos uma dezena de candidatos que tentam vagas na Alerj ou no Congresso.

“A milícia perdeu seu espaço político por conta da CPI. Mas a lógica desses grupos é como a da máfia. O problema não vai ser resolvido com a prisão dos líderes. Você só tira a força deles inviabilizando seu poder econômico. O que não foi feito até hoje”, afirma o deputado, dentro de um carro blindado, após participar de rápida panfletagem. As milícias faturam até R$ 60 milhões por ano.

Professor de história, 43 anos, pai de dois filhos, morador de Niterói e militante de direitos humanos, Freixo está no primeiro mandato. Foi eleito com 13.547 votos, em 2006. A campanha de Heloísa Helena à Presidência ajudou a legenda a completar o número de votos necessários para o PSOL conquistar uma cadeira na Alerj.

Agora, a tarefa é mais difícil. Sem Heloísa e com as dificuldades para fazer campanha, é provável que o partido veja diminuir sua votação de legenda. Ainda que Freixo chegue aos mais de 60 mil votos estimados por sua campanha, ele terá dificuldades para se reeleger – a previsão é que sejam necessários 125 mil votos. Em caso de derrota, Freixo não tem dúvida: vai ter de fugir do Brasil.

O delegado de Polícia Civil Vinicius George, assessor parlamentar de Freixo e coordenador de sua segurança, resume a situação: “O preço do cadáver de um deputado é muito mais alto do que o de um professor de história.”


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