A cerimônia da posse

 

Quase seis horas ao vivo. 
A garganta, claro, acordou arranhando ontem. Mas como jornalista foi uma grande realização atuar pela segunda vez numa cerimônia de posse. Em 2003, estava na posse de Lula como repórter, a poucos passos da rampa do Palácio do Planalto. Pude participar da transmissão num momento muito simbólico – os 50 passos de Lula rumo ao poder. E pude sentir a ebulição na Praça dos Três Poderes lotada.

Desta vez, estava lá no alto,  na cobertura do anexo 4 do Congresso Nacional, ancorando a transmissão da cerimônia pela Record, narrando cada  passo, cada  reação de Dilma Rousseff. Pude acompanhar todos os momentos da posse, mas de um ponto de vista mais distante – a exatamente 10 andares acima da Praça dos Três Poderes, nem tão lotada como em 2003.

Lá de cima refleti e notei muitas diferenças entre um evento e outro, além da quantidade de gente na Esplanada. 

2003 era uma catarse. Eleitores e militantes estavam numa euforia, quase em transe pelo operário que chegava ao poder. Muitos petistas de carteirinha e também lulistas de primeira viagem. Pessoas simples que depois de muito desconfiar do sapo barbudo Lula, foram seduzidas pelo Lulinha paz e amor.

Lula, ao discursar ao povo, improvisou. Falou do orgulho de estar ali com a Dona Marisa num vestido bonito, onde no passado jamais imaginou que poderia estar. Falou que se um ex-operário chegou até aquele palácio, todos os brasileiros deveriam acreditar que também poderiam fazer grandes conquistas. Foi um banho de autoestima. Lula ali era como um espelho para o povo. E foi, literalmente, um banho coletivo no espelho d’água do Congresso. 

Sábado, Dilma discursou para o povo e também falou de possibilidades. Como primeira mulher a chegar à Presidência, claro, enviou o recado para as mulheres de que todas nós podemos. Mas não se alongou neste ponto. Leu um discurso mais técnico, indicando prioridades, reafirmando compromissos. Emocionou-se e fez muita gente se emocionar, mas não foi a catarse de antes. 


Vi muitas mulheres chorando pela conquista de uma de nós. Me emocionei como elas. Alguns homens podem não entender muito bem essa história, mas pra nós faz muito sentido. Lá de cima me lembrei de quando eu tinha 9 anos.

Numa escola de freiras, uma professora ditou pra que as meninas anotassem no caderno a diferença entre os sexos. Homens: inteligência e força. Mulheres: sensibilidade e delicadeza. Naquele dia voltei pra casa inconformada.

Sábado, ao ver Dilma subir a rampa, me lembrei daquela aula absurda proferida por uma professora rendida à crença daquele tempo. E nem faz tanto tempo assim – menos de 30 anos. 

E foi por isso que me emocionei com as mulheres na Praça dos Três Poderes. Mas não vi a catarse de 2003 e fiquei feliz por isso. Em oito anos o Brasil amadureceu. O banho de autoestima do Lula foi necessário. As políticas sociais também.

Mas acho que um número cada vez maior de pessoas já está entendendo que precisamos avançar. Lula falou em garantir a comida para quem ainda não tinha três refeições por dia. Dilma falou em oportunidades para que os pais possam dar aos filhos um futuro melhor. 

Que venha esse futuro… Que venha o banho de Dilma. 
Nós mulheres comemoramos a conquista, mas também sabemos que governar bem não é uma questão de gênero, mas, sim, uma questão de ética e compromisso. 
Até por que, além de força e inteligência, temos sensibilidade.
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